ARTIGO: O PREÇO DA LIDERANÇA

POR BRUNO VARELLA MIRANDA

Doutor em Economia Aplicada pela
Universidade de Missouri – Columbia

O
recente apelo feito pelo Conselho Nacional do Café (CNC) para que o governo do
Brasil honre os seus compromissos perante a Organização Internacional do Café
(OIC) revela uma preocupante tendência. Nela, o cuidado com o orçamento se
confunde com o descuido com resultados acumulados após décadas de árduo
trabalho. Assim como em outras esferas da vida pública, qualquer conquista no
cenário internacional exige um longo período de ação consistente.

Mais
especificamente, a Lei Orçamentária de 2018 prevê recursos que equivalem a 49%
do total devido pelo Brasil à OIC. Na prática, o governo brasileiro abrirá mão
de participar de maneira plena da próxima reunião da Organização caso seja
incapaz de pagar sua anuidade até o fim de março. O valor em questão: R$ 1,6
milhão. Trata-se de muito pouco diante do potencial efeito negativo sobre a
reputação do país junto aos outros membros da OIC.

É
bem verdade, a responsabilidade fiscal é fundamental para a retomada do
crescimento econômico. No entanto, medidas como a alocação insuficiente de
recursos para a participação plena do Brasil na OIC passam uma mensagem
equivocada à comunidade internacional. Afinal, a superação da crise depende de
mais diálogo com o mundo – e não de uma retração acrítica, justificada
unicamente pela necessidade de corte de gastos. Em política, inexiste vácuo; por
isso, cabe a nós ocupar todos os espaços estratégicos possíveis.

A
OIC constitui um importante fórum de coordenação entre os Estados vinculados à
produção e ao comércio internacional de café. De fato, a mera existência de uma
plataforma onde partes interessadas dialogam periodicamente já deveria ser
celebrada. Considerando a predominância absoluta dos países em desenvolvimento
na produção do produto, a organização joga um papel fundamental na compilação e
divulgação de informaçoes que beneficiam cafeicultores, empresas, governos e
pesquisadores.

Sob
uma perspectiva brasileira, a participação ativa na OIC deveria ser uma
consequência natural do protagonismo do país no mercado internacional do café.
A liderança vem necessariamente com um preço. Mais especificamente, influenciar
os rumos de um setor exige o dispêndio de recursos. Nesse sentido, a
incapacidade de honrar os compromissos perante a OIC equivaleria ao Brasil
abrir mão de sentar à mesa – reduzindo sua habilidade, portanto, de liderar
qualquer ação coletiva.

O
equilíbrio do orçamento somente nos levará a uma trajetória de desenvolvimento
de longo prazo se acompanhado de um projeto estratégico de país. A ação
política em uma democracia implica decisões complexas de alocação de recursos.
Para tanto, é preciso tanto dar atenção às preferências dos eleitores quanto
delinear um plano coerente, capaz de conectar meios e fins. Por trás dos dados
agregados existem decisões que determinarão o perfil da sociedade e da economia
do Brasil ao longo das próximas décadas.

Infelizmente,
a impressão é a de que inexiste clareza sobre os fins perseguidos por nossos
líderes políticos. Muito se fala sobre a tal retomada do crescimento, mas pouco
sobre o tipo de crescimento buscado. Vez ou outra um indicador de curto prazo é
enaltecido, enquanto limitaçoes estruturais fundamentais seguem afetando a vida
de milhões de cidadãos. É justamente essa dificuldade em estabelecer
estratégias coerentes que gera decisões como a alocação insuficiente de
recursos para a participação plena do Brasil na OIC. Quando somos incapazes de
explicar onde queremos chegar, tampouco podemos justificar quais caminhos
seguir.

(Fonte: Café Point)