A XÍCARA VAI SECAR?

Os brasileiros tomam, em média, cinco xícaras de café todos
os dias. A bebida é a segunda mais consumida no país “” perde apenas para a
água. A demanda é alta, mas, hoje, a oferta também. O Brasil domina 32% da
produção mundial do grão e é o líder do setor. Toda essa fartura, no consumo e
na produção, no entanto, pode ser abalada. Um estudo divulgado na
segunda-fei­ra 11 pela Universidade de Vermont (EUA), referência em
climatologia, apontou para um futuro amargo. Segundo a pesquisa, efeitos do
aquecimento global, que tem desbalanceado o clima no planeta, podem reduzir em
até 88% as áreas próprias para cultivo de café na América Latina “” o principal
polo produtor “” nos próximos quarenta anos.

São duas as principais espécies de café: a arábica, que
representa 70% da safra mundial, e a robusta, ambas presentes no Brasil. Tanto
uma como a outra necessitam de condiçoes muito específicas para crescer. A
arábica tem de ser cultivada em temperaturas que vão de 15 a 24 graus. A
robusta floresce entre 22 e 26 graus. Assim, qualquer variação no clima acaba
por prejudicar as plantaçoes. De acordo com o Painel Intergovernamental sobre
Mudanças Climáticas (IPCC), órgão da ONU, um aumento de 3 graus na temperatura
global já reduziria em 50% as áreas cultiváveis em países como Brasil, Vietnã,
o segundo maior produtor mundial, e Colômbia, o terceiro da lista.

Disse a VEJA o agrônomo argentino Pablo Imbach, do Centro
Internacional de Agricultura Tropical, integrante da equipe que fez o novo
estudo: “Um dos diferenciais da nossa pesquisa é que, em vez de só focarmos
medidas preventivas que poderiam ser aplicadas nas fazendas, mostramos a
importância de também preservar florestas e proteger polinizadores das plantaçoes,
como as abelhas, de modo a mitigar esse problema”. O trabalho publicado pela
Universidade de Vermont, e apoiado financeiramente por instituiçoes como a
Iniciativa Global do Clima e o Banco Mundial, é o primeiro a balancear as
consequências de efeitos diretos e indiretos das mudanças climáticas nos
cafezais.

Com isso, revelou-se, por exemplo, que a redução no número
de insetos no ambiente “” como as abelhas, responsáveis pela polinização de 40%
das fazendas de alimentos consumidos por humanos “” seria devastadora para a
produção de café. Ainda não se sabe ao certo por que as abelhas estão sumindo,
mas a aposta mais concorrida sugere que seja uma combinação de fatores: a
disseminação do uso de pesticidas, a ação de parasitas, a perda de hábitat pelo
desmatamento de florestas e, por fim, o vaivém do clima, que deixa estaçoes
menos definidas, além de levar a altas e quedas bruscas nas temperaturas,
bagunçando o ciclo de desenvolvimento de flores das quais aqueles insetos são
dependentes. Resultado: nos Estados Unidos, as colônias foram reduzidas à
metade e, na América Latina, estima-­se que o número caia 65% até o ano de
2050.

O estudo da universidade americana analisou as consequências
desse somatório de problemas nas plantaçoes de café do tipo arábica. O continente
latino-americano, responsável por mais de 80% do abastecimento global do grão,
seria o mais afetado. Só no Brasil, calcula-se que o impacto chegará a uma
diminuição de 60% dos terrenos férteis. Já é possível sentir os primeiros
ventos desse desastre. Em 2016, após um período de secas, o Estado do Espírito
Santo viu sua produção de café encolher 30%, e, com isso, o preço do produto
capixaba aumentou 43% para o consumidor final. Segundo cálculos do sindicato da
indústria no Espírito Santo, a dramática situação deve se estender ao menos até
2019, quando se espera que as chuvas voltem. Entretanto, pelo que indica a nova
pesquisa da Universidade de Vermont, o cenário positivo não se prolongará por
muito tempo.

Obviamente, a economia mundial sofrerá o impacto da provável
crise a ser enfrentada pelo setor cafeeiro. Cerca de 20 bilhões de dólares são
movimentados com a exportação do grão, resultado do consumo diário de 2,25
bilhões de xícaras de café. Há setenta países que comercializam a commodity e
todos devem ser afetados. De acordo com o biólogo americano Taylor Ricketts, da
Universidade de Vermont, e também autor do novo trabalho, “25 milhões de
fazendeiros e cerca de 100 milhões de trabalhadores, a maioria habitantes de
áreas pobres, dependem da lida nos cafezais”.

O café não é o primeiro “” e provavelmente não será o último
“” produto a receber prognósticos de teor apocalíptico atrelados às mudanças
climáticas que tomaram o mundo de assalto em consequência de açoes humanas como
a emissão de gases de efeito estufa pela indústria. As plantaçoes de cacau, por
exemplo, também se veem ameaçadas. Estima-se que já em 2020 a demanda por
chocolate ultrapasse a produção “” mais em função de uma redução da segunda e
não apenas pelo aumento da primeira. Se essa situação se concretizar, barras da
iguaria devem encarecer 60% mundo afora. O assim chamado “chocalipse” impactará
principalmente naçoes que se si­tuam próximo da linha do Equador, tida como a
região ideal para a germinação das sementes de cacau.

Há, no entanto, um alento. Com a palavra, o biólogo
Ricketts, da Universidade de Vermont: “Assim como em outros casos de risco
diante de mudanças climáticas, a previsão não é definitiva”. Segundo o IPCC, se
a humanidade continuar a emitir gases poluentes na mesma toada de hoje, o
aumento da temperatura mundial superará os 4 graus ainda neste século, um
desastre para a agricultura. Mas, se houver substituição total das fontes
energéticas sujas pelas sustentáveis até 2050, como quer a ONU, a elevação se
restringirá a 1,5 grau “” diminuindo a probabilidade de desastre. Ou seja, há
ainda saborosa esperança de que o hábito do cafezinho pós-almo­ço possa ser
desfrutado pelas próximas geraçoes.

(Fonte: ABIC)