UMA SAFRA DE CAFÉ QUE FICARÁ NA MEMÓRIA

A safra de café 2018/19, cuja colheita se aproxima do fim no
país, não deve ficar na lembrança apenas pelo volume recorde estimado de 58
milhões de sacas. Cafeicultores, exportadores e indústria ouvidos pelo jornal Valor
Econômico são unânimes em dizer que a qualidade dos cafés colhidos nesta
temporada é a melhor já vista em muitos ciclos.

Não raro, o adjetivo “excelente” tem sido usado para
classificar o café arábica que saiu das lavouras do Sudeste do país nos últimos
meses. E essa excelência, segundo produtores, deve garantir um aumento na
oferta de cafés especiais – destinados sobretudo à exportação – neste ciclo.
Isso significa um maior volume de produto que obtém preços, em média, 40% a 50%
superiores ao indicador Cepea/Esalq para o café, que ontem fechou a R$ 410,34
por saca.

Uma combinação de fatores favoráveis explica a qualidade
notável registrada na atual safra de café arábica, que corresponde a 76% da
produção total de 58 milhões de sacas – o restante é conilon. Choveu quando era
necessário nas regiões produtoras e não choveu durante a maior parte da
colheita “” à exceção de precipitaçoes pontuais no fim de julho e no começo
deste mês, principalmente.

“A florada foi homogênea, choveu na hora certa e os grãos
amadureceram todos juntos”, explica Javier Faus Neto, da Bourbon Specialty
Coffees, especializada na exportação de cafés especiais. Para completar o
cenário favorável, não houve chuva durante a colheita, o que evitou a
fermentação do café. O resultado, afirma, foram grãos com maior doçura e uma bebida
“limpa”, sem adstringência.

Segundo ele, os lotes de café recebidos até agora pela
Bourbon, das regiões do Cerrado Minero e da Zona da Mata, têm tido uma
incidência de 55% a 60% de grãos peneira 16 acima, demandados na exportação.

Entre produtores de cafés especiais, o entusiasmo é
evidente. Segundo Êbion Terra, diretor-executivo da O’Coffee, em Pedregulho, na
Mogiana Paulista, nesta safra a empresa produzirá um percentual maior de cafés
que podem ser classificados como gourmet na temporada 2017/18. “A qualidade é a
melhor dos últimos anos”, afirma Terra. De acordo com ele, isso foi possível
pois o ciclo completo de produção foi favorável. “Teve a chuva necessária e o
período seco para a colheita”, acrescenta.

“Estamos registrando uma qualidade excelente de bebida.
Tanto que 60% a 65% do que produzimos serão cafés especiais, com pontuação 80
acima”, diz o diretor da O’Coffee, referindo-se aos critérios de avaliação da
Associação Americana de Cafés Especiais e da Associação Brasileira de Cafés
Especiais (BSCA).

A empresa deve produzir 33 mil sacas no ciclo atual, ante 28
mil sacas da safra passada, graças à bienalidade positiva e à colheita em áreas
em que houve poda de cafezais. Na temporada 2017/18, quando choveu na colheita,
o volume de cafés especiais produzido pela O’Coffee não chegou a 50%, de acordo
com Terra. Do total de cafés especiais produzidos na O’Coffee, 95% devem ser
exportados.

Além de ampliar o volume de cafés especiais, o executivo
acredita que haverá “cafés que vão despontar, com uma qualidade fora da curva,
com maior pontuação, que são os microlotes”. Isso, diz Êbion Terra, pode
permitir uma agregação de valor em torno de cinco vezes o preço de uma saca de
café commodity.

O produtor Adolfo Vieira Ferreira, ex-presidente da BSCA,
que cultiva café em Monte Belo, no sul de Minas Gerais, observa que, de uma
maneira geral, o clima colaborou “muito” para a qualidade, embora tenha havido
chuvas irregulares em algumas regiões durante o desenvolvimento da safra
2018/19.

Ele também deve produzir nesta temporada mais cafés
especiais do que a média de outros ciclos. “A média é 60%, mas deve alcançar
65% a 70% nesta safra”. Ferreira está finalizando a colheita da safra 2018/19,
que deve ficar em 8 mil sacas.

Faus Neto, da Bourbon, observa que a maior oferta de cafés
de qualidade pelo Brasil não significa necessariamente mais demanda pelo
produto. A BSCA estima aumento de 8% nas vendas externas de cafés especiais
este ano, sobre as 7,7 milhões de sacas de 2017.

Embora o clima seja fundamental, as boas práticas na
colheita e no pós colheita do café, a rastreabilidade e a sustentabilidade da
produção são cruciais para determinar se um café pode ser certificado como
especial.

De fato, a qualidade do café commodity – que responde pela
maior parte da produção e cujos preços estão em forte declínio – também
melhorou graças ao clima benéfico. No entanto, normalmente, não há prêmios
sobre o preço desse produto, a não ser que haja mais demanda.

Nathan Herszkowicz, diretor-executivo da Associação
Brasileira da Indústria de Café (Abic), diz que a indústria de café tradicional
já se beneficia da oferta de grãos de mais qualidade, que foram colhidos em
junho e estão sendo processados pelas torrefadoras.

Avaliação feita dentro do Programa de Qualidade do Café
(PQC), da Abic, com amostras do varejo de cafés tradicionais, que já incluem
alguns cafés novos, mostra melhora na pontuação dessa categoria. Saiu de 4,5 a
4,6 pontos em 2017, para 4,7 a 4,8 atualmente, segundo Herszkowicz.

Ainda que reconheça que o clima “foi espetacular” para a
safra de café, Pedro Lima, CEO do Grupo 3coraçoes, avalia que grande parte do
avanço na qualidade está relacionado a melhorias no processo de produção. “O
cafeicultor está cada vez mais melhorando o processo de produção, com boas
práticas de colheita e pós colheita, e a indústria tem investido na qualidade”,
diz. Líder no mercado de cafés no Brasil, a 3coraçoes tem ampliado suas linhas
de grãos gourmet nos últimos anos.

(Fonte: Valor Econômico)